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Chichas

Porcarias que encontro por aí

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19
Set08

As minhas cinco secas

Pedro Chichorro

 O nosso amigo Pony, cheio de si, achou que Chichas Manuel havia de querer escrever sobre as suas cinco maiores secas passadas.

Não sei porque se lembrou de mim, já que embora nos conheçamos pessoalmente, não somos próximos ao ponto de ele saber um dos meus maiores defeitos: sou geralmente muito pontual. Isso faz de mim um especialista em secas. Ora temos então que:

 

A tal pontualidade

Não vou falar em aeroportos ou inspecções militares já que isso é uma experiência comum a muitos. Vou embalado no assunto da pontualidade. Sou a pessoa que chega às 21 horas ao restaurante porque o jantar foi marcado para as 21 horas. Falho algumas vezes mas muito raramente e nunca me estico muito. É natural chegar a horas, nem me esforço. Tenho mestrado em estar sozinho no restaurante à espera de todos, às vezes até ignorado pelos empregados.

 

Fins de tarde em geral

Os fins de tarde, sozinho, em casa, são uma seca. Aquele espaço entre as 18 e as 20. Na TV ninguém se esforça porque os espectadores estão no trânsito. As notícias estão vistas e revistas. Os blogs estão lidos e o botão de actualizar não faz nada. É tarde para aspirar, é cedo para jantar. É tarde para passear e é cedo para sair. Cozinhar? Sozinho? Vou lá abaixo e por pouco mais de 3 euros trago comida que me dá para 2 refeições.

O fim de tarde é um limbo.

 

A longa caminhada

Tinha eu uns 16 anos e, com o meu amigo Balbis, fui por esse Portugal fora com pouco dinheiro e mochila às costas. Apanhámos inúmeras secas durante aquela semana de campo mas a grandiosa seca começou quando em Grândola nos disseram que a praia era perto. Nós dormiamos nas praias.

Sei dizer que andámos a pé numa recta escura durante umas 8 horas. Pelo meio trocámos de meias algumas vezes, sentíamos bolhas nos pés que nem existiam e até demos boleia na mochila a um gatinho perdido.
Não foi a maior caminhada que fizemos,mas foi a mais secante por estarmos sempre com esperança que os números pintados em pequenos mecos brancos à beira da estrada, que iam decrescendo à medida que avançávamos, fossem os quilómetros restantes para o destino e não para o próximo cruzamento.

 

A sala de espera

Há quase 2 anos o meu camarada Garcia disse-me que o tratamento que estava a fazer contra a queda (e reaparecimento) do cabelo estava a funcionar lindamente. Convenci-me e não interessa agora se funcionou ou não. Desisti passado um ano.

Entrei no consultório do Professor Doutor às 14 horas de um dia lindo de sol e até às 19 horas escuras de Dezembro estive ali dentro.

A consulta foi simpática e até vi o meu escalpe bué de pertinho no monitor mas a sala de espera foi uma experiência traumatizante e um dos principais motivos de eu ter desistido de ser um Art Garfunkel tripeiro.

Foram 4 horas a ouvir TODAS as músicas possíveis e imaginárias em versão flauta dos andes sintetizada com aquele volume de barbearia que nem se ouve bem nem nos deixa em paz. Foi desde Abba a U2 e por muito pouco que não me levantei e degolei toda a gente ali dentro.

 

Esta dói só de lembrar

Meninos e meninas, a maior seca, até hoje, (bato na mesa da Moviflôr na esperança que haja mais madeira ali do que uvas numa garrafa de Mateus) que apanhei.

Alguns de vós saberão a falta de energia com que se chega a casa às 6 e meia da manhã depois de uma noitada. Seja ela lúdica ou laboral. Ora certo dia, estava cá em casa hospedado um indivíduo que nem vou dizer quem é que entrou antes de mim e deixou a chave na parte de dentro da fechadura. Era impossível abrir a porta por fora.

 

A fase optimista: Campaínha, muita campaínha. O animal tinha o telemóvel desligado. Campaínha de cima e da porta de baixo na esperança que a diferença de frequencia resultasse.

 

A fase do pânico: Murros e pontapés na porta. Podia fugir para casa da mamã ou do papá e até do mano. Mas bolas, o boi vai acordar eventualmente e eu quero a MINHA cama!

 

A fase da perda de lucidez: Desligar a àgua e o gás. Eram as únicas coisas sobre as quais eu tinha algum poder. Além disso não tinha papel e caneta para escrever "abre a porta" e enfiar por baixo.

 

A fase da tristeza: Sim, acho que chorei. Ouvia o Figo lá dentro a cheirar a frincha. Outro imbecil inútil. Qualquer dia dou a cabritada cá em casa e desaparece o rafeiro.

 

A fase do cansaço: Peguei no tapete dos pés e enrosquei-me em cima dele nas escadas de emergência, onde havia menos luz e os vizinhos quando saíssem não me iam ver.

 

A fase das dores: Fui à padaria comprar um saco de 12 pães para usar como almofada. Comi um.

 

Uma da tarde. Sentado no jardim a ouvir as notícias no rádio do MP3. As crónicas da TSF que fazem um apanhado dos acontecimentos da semana foi um momento de prazer no meio de tanto sofrimento. Quem passava olhava para mim. Estive horas a deambular.

 

Tive raiva. Dei pontapés. Mandei dezenas de SMS ao otário a insultá-lo. Abriu-me a porta às quatro e meia da tarde.
Se tivesse sido noutra fase da seca ter-lhe-ia arrancado os olhos com as chaves. Noutra talvez me abraçasse a ele a chorar. Mas não...eu estava demasiado cansado, entrei, passeei o cão que devia estar aflito para fazer xixi e fui dormir.


Mais tarde voltei a chegar a casa com a porta trancada, mas dessa vez fui direitinho pedir ajuda à família.

Este deve ser o meu maior post de sempre. Mas sendo sobre secas, adequa-se.

PS: falta-me uma viagem de 26 horas de autocarro, mas tenho que ir toma banho para estar num restaurante à hora marcada.




 

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