Sábado, 19 de Janeiro de 2008
Um sotaque, dois sotaques, três sotaques pelo ar.

É difícil, talvez a Maria Rueff tenha chegado muito perto, mas um lisboeta imitar o sotaque do Porto é tão mau como quando um brasileiro tenta falar como os portugueses. Aliás, a razão é a mesma, os portugueses não falam todos da mesma forma, os portuenses também não e muito menos os nortenhos em geral.

É tudo muito complexo, tenho um amigo brasileiro que já fala como os brasileiros com um sotaque do Porto. Mas lá está, é amigo e uma pessoa nem liga. Conheço um francês que arranha português e escreve «siempre» em espanhol porque sempre ouviu essa palavra em português do norte. «Sempre» com sotaque prova que este(s) sotaques são influência dos hermanos.

O que acontece então quando um lisboeta tenta imitar o «sotaque do puorto»? Acontece uma real cagada, uma mistura de Gondomar, Braga, Guimarães e até Viseu se não os segurarmos! Mas lá, Leiria é Norte. Tal como os brasileiros que quase falam ucraniano quando nos tentam imitar. Dizem «ane» em vez de «Ana» e nem nós nem ninguém os percebe muito menos acha graça.

Como diria o Sócras, é preciso que os portugueses saibam que só dentro da cidade do Porto o ouvido treinado consegue distinguir pelo menos 3 sotaques.  Primeiro o de quem vive cá mas não é realmente daqui. Este sotaque é mesclado mas tem um fio condutor. Geralmente anazalam o fim das palavras: dizem «Zéan» quando querem chamar o «Zé», por exemplo.
Depois temos dois sotaques absolutamente distintos e geográficamente separados por não mais de 8Km. O da Ribeira/Sé e o da Foz.

O que os distingue é principalmente o uso dos tempos verbais. Não os usam.
Os meninos da Foz usam sempre o presente e dizem sempre «andamos», isto é facilmente observável nos canais nortenhos de televisão e RTPN. Não distinguem o «começamos» do «começámos» e usam sempre a forma presente. Ferramos, caçamos, chateamos, falamos.

Na Ribeira é o oposto, é sempre no passado: Ferrámos, caçámos, chateámos e falámos. De notar também o uso do «oum» em vez de «ão». Sé e Ribeira.
Isto é apenas uma leve aproximação ao tema. Apenas falei no pequeno concelho do Porto. Gaia é um concelho gigante e com muitas povoações, Matosinhos tem influências piscatórias de destaque e Gondomar... Ah «Gondomarrrrr» (ler o R como os ingleses).
Mas nada bate a força e até a rudeza de Braga, Trofa ou Guimarães, mas seria fugir demais embora em Lisboa pareça tudo igual. Talvez porque a grande maioria dos nortenhos que vão para lá sofram de síndrome de Fernando Alvim e, no fundo do típico português: têm vergonha do que são e já nem conhecem a mãe. (os portugueses, o Fernando só tem pavôr de ter sotaque).
Eu que nasci no Porto e moro aqui desde os 18 só consigo dizer «Pláno Bêa» em vez de Plano B e isto diverte algumas pessoas. Também gosto de dizer «inhántes» como em «O Café Santiago fica inhántes de chegar ao Coliseu» (isto se vier dos Poveiros). Para mim chega-me e não quero abusar da sorte.



por Pedro Chichorro às 19:50
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2 comentários:
De pedrocs a 21 de Janeiro de 2008 às 11:39
Agora sim, estás a escrever posts verdadeiramente interessantes. Continua, carago, qu'eu gosto desta merda.


De Ana a 30 de Janeiro de 2008 às 22:44
Curti bue do post, ate aprendi algumas coisas, bem eu sou lisboeta, nunca fui ao Porto (shame on me) por acaso curto do sotaque do Porto e principalmente do de Braga, ja o sotaque de Viseu nao me cai bem...o de Guimaraes nao faço a minima ideia! e nao tinha essa ideia que os portuenses sentiam vergonham qdo vêm para LX, esqueceste d falar do -uo tipo Puoorto é o que sai mais a vista! E é verdade ~Brasileiro a tentar falar com sotaque portugues é mto mau, é engraçado num pais tao pequeno existir tantos sotaques, ainda falta o Alenjano, o do Algarve, e claro das ilhas..


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