Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009
A senhora dos guarda-chuvas

 Moro num enclave em pleno concelho do Porto. Eu e milhares de pessoas, senão reparem: Embora a freguesia seja Ramalde, esta é tão extensa que quase não nos acolhe como Ramaldenses. Estamos relativamente longe do centro de decisão, que é o Edifício do Lago, e é uma zona mais ou menos nova para o sítio que viu nascer o cinema português, treinar o Humberto Coelho e balear líderes de grupos de seguranças nocturnos. Francos é aqui ao atravessar a estrada, mas estamos deste lado e ficaria estranho a fronteira entre freguesias não coincidir com o traçado da VCI. Só aqui temos viadutos-fantasma e  terrenos pantanosos de nevoeiros rasteiros e sinistros que emanam energias diferentes. Não admira portanto que todos que aqui habitem tenham uma forma de estar na vida algo alternativa. Tipo Olivença mas com mais bovinos do que suínos.

Aqui não se fala das intempéries, dos escândalos nacionais, das crises mundiais. Aqui fala-se na "senhora" que é a pessoa que há uma semana se plantou ali num cruzamento junto ao jardim grande à chuva, em pé, imóvel. Todos os dias em todos os cafés e espaços públicos se avança um pouco mais na informação partilhada sobre "a senhora" que vai ficar ali vinte dias. É de Famalicão, A vida dela é esta: sofrer por nós nos sítios onde é mais necessário. Dizem que faz isto há muitos anos e vai mudando de sítio conforme Deus quer e a envia.

Às vezes rodeada de povo, com ou sem polícia a tentar dialogar, com ou sem guarda-chuvas suplentes pousados aos pés  dela, cada vez mais sozinha, que as gentes e as autoridades já começam a ficar habituados à "senhora".

Ao todo serão vinte dias, se depois disso sentirmos melhorias no estado de espírito da urbanização e a "senhora" já tiver desaparecido vamos ter que mandar fazer uma estátua.

Afinal aquele jardim está despido, em vez do tradicional cauteleiro a quem o pessoal encaixa um cigarro nos lábios, teremos uma estátua encurvada, solitária, debaixo de um guarda chuva e onde vamos depositando aos seus pés os nossos guarda-chuvas velhos. Já vi tradições com inícios mais fracos.
A personagem vai estar ali mais uns dias, não é um espectáculo visualmente estimulante, mas depois quando existirem as ancestrais tradições, podem dizer aos vossos netos que, para além de terem vindo várias vezes de metro com o emplastro, também viram "a senhora".

 

PS: ainda não tive coragem de lhe tirar uma fotografia.
 



por Pedro Chichorro às 15:31
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1 comentário:
De José Pedro Magalhães a 5 de Fevereiro de 2009 às 09:39
Tira! Quero ver :-)


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