Terça-feira, 30 de Setembro de 2008
Post melancólico, ou voyeur nasal

 Gosto muito de andar a pé por cidades e adoro fazê-lo no Porto pelas sensações que proporciona.
Como é característico na invicta, as pessoas falam e agem na rua sem medo e as coisas mais inacreditáveis acontecem à nossa frente. Num dia bonito como hoje, numa altura do ano em que a cidade fervilha com as baterias carregadas e ainda sem a carga negativa da chuva e do Natal, passear por aí é um banquete aos sentidos. Ao ponto de tirar os fones e reservar o leitor de MP3 para quando voltar de metro.

Houve um sentido que me foi especialmente estimulado desde Ramalde passado pelo Carvalhido, Oliveira Monteiro, Cedofeita e Praça de Parada Leitão: o odor.

 As ruas estreitas e as casas antigas com quintal fizeram com que eu fosse com as narinas atentas ao que vinha do meu lado.
Quem nunca sentiu o cheiro dos quintais atrás do granito ou as lojas ancestrais que vendem fruta ou mercearias? As casas antigas com aromas de estrugidos, guisados, sopas e fritos.O moderno supermercado soltando odores de caixas de cartão e detergentes para a roupa. O cheiro alegre dos cabeleireiros, os restos ancestrais de vinho no chão das tascas, as prateleiras desinfectadas de farmácias e consultórios. O pinho de um soalho acabado de instalar ou do cimento  fresco de uma obra. Ou uma simples viela de pedra carregada de musgo que de repente nos refresca com uma corrente de ar frio do campo.

Há um cheiro que supera todos, quando o sinto o mundo pára. A janela aberta da casa de uma velhinha a cheirar a isso mesmo: casa de velhinha. Um cheiro impossível de fazer em laboratório. São precisos muitos anos para se conseguir um cheiro assim. A loucinhas e rendinhas, lixívia e cera Gloco. Revistas de bordados, jornais, naftalina. Medicamentos e canalizações antigas. Sei lá, são milhares de nuances num só cheiro tão melancólico que me levou a escrever isto.
Amanhã pela mesma hora regresso.



por Pedro Chichorro às 17:43
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11 comentários:
De alexandrecorrupto a 30 de Setembro de 2008 às 19:52
andas a ler "Em busca do tempo perdido" do Proust? se não andas parece :)


De Pedro Chichorro a 30 de Setembro de 2008 às 20:10
Nope. Nunca li...
Textos acerca de cheiros devem ser mais que as mães. Escrevi este muito pouco tempo depois do passeio e sensações. Se esperasse já não o teria escrito. Ainda vinha com eles agarrados.


De alexandrecorrupto a 30 de Setembro de 2008 às 20:39
Não sejas herege... lol... o cheiro de chá e das bolachas leva Proust a uma viagem à infância... mas enfim, só lendo...

mas se calhar tu és um Proust... até meteste alguém a chorar... :))


De Pedro Chichorro a 30 de Setembro de 2008 às 20:43
já viste?... e sou tão meiguinho....


De João a 30 de Setembro de 2008 às 19:53
E depois, no metro, os odores são outros...mais corporais, e nem sempre emanados por corpos bem lavados...


De Pedro Chichorro a 30 de Setembro de 2008 às 20:12
Não sejas preconceituoso. Tu nem andas de metro.
Mas pronto... se hoje alguém emanava odores devia ser eu, que ir a pé num dia quente de ramalde aos leões e subir para a trindade faz uma pessoa segregar fluidos pela cútis.


De Fernando Soares a 30 de Setembro de 2008 às 20:07
Chichas, estou emigrado e este teu post, tão simples mas tão carregado de emoções quase me fez soltar uma lágrima.
Confesso, fez mesmo.


De pedrocs a 1 de Outubro de 2008 às 15:35
Muito bem apanhado e muito português. Às vezes, alguns dos nossos compatriotas esquecem-se que Portugal é um país; o que descreveste do Porto fez-me lembrar Lisboa - é tudo a mesma coisa, com algumas variantes.

Um dos cheiro que a mim me faz parar (e cada vez há menos), é o dos óleos e benzinas da oficina de bairro.


De Pedro Chichorro a 1 de Outubro de 2008 às 17:31
Por acaso não passei por nenhuma oficina ou garagem. Assim como não passei por nenhuma drogaria ou casa de borrachas ou alfarrabista. Todas com cheiros especiais.


De pedrocs a 3 de Outubro de 2008 às 16:18
Drogaria é outro que ia mencionar e depois fiquei-me pelas oficinas. Armazéns de papelaria também são interessantes.


De Catarina a 5 de Outubro de 2008 às 15:21
Adorei a descrição destas sensações :) Seja no Porto ou noutra cidade portuguesa, a quem não aconteceu já? Ficar-se hébrio com um qualquer odor característico que permanece até mesmo depois de termos descido a rua.

Aposto que um post com a variante "som" seria igualmente interessante. O som das mesmas oficinas, dos mesmos quintais, das mesmas casas das "velhinhas", dos mesmos mini-mercados ;)


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